Sobre o Grito Silencioso do 13 de Maio

Certa feita, um sinistro grito se fez ouvir das profundezas abissais, vindo de um som tetricamente produzido por um carnívoro e insensível chicote, que impiedosamente destroçava seguidamente a carne de vítimas especialmente escolhidas em consequência da intensa melanina presente na tez; foi assim que o verbo se fez carne; justamente numa das oitavas oitivas, em meio ao feral espetáculo de um barulhento piano operístico, que silenciosamente sangrava, enquanto era afinado pelo maestro das sombras; regente este que, depois de toda essa funesta preparação, se refestelava impassível a fim de assistir, do alto de seu imponente dossel, o piano calibrado, entoando as melodias de ódios exclusivamente dedicados ao seu bel prazer.

Nesse macabro espetáculo da escuridão, as teclas pretas, de angélicos pássaros idílicos, se transformaram em carniceiras aves de rapina, enquanto o restante das teclas alvas, decidiram repousar sobre papeis em branco, sendo em seguida, transformadas em emocionantes cartas endereçadas aos patriotas; esses soldados desconhecidos que morreram sem razão, durante a ocupação e construção dessa nação de alienados e degenerados, presidida por uma indescritível aberração.

Foi então que, finalmente perceberam estupefatos, após as longas leituras relidas e debatidas sobre o silêncio das referidas cartas sem letras, e da audição dessa melódica canção executada ao fundo, sem as densas teclas do instrumento pertencente a esse cruento verdugo; a existência do estrondoso silêncio se revelou, açulado pelo sangue corrente que copiosamente borbulhava, contrastando com a vibrante cor da celeste cútis que cobriu aquela longa noite sem lua, com o inaudível som produzido por esse momentum, com seus mais de setenta tons tatuados sobre essa pele brancamente empretecida; expondo dessa forma, essa arte em alto-relevo, que fora dolorosamente esculpida sobre a receptiva derme da melanina estigmatizada; formando assim, possantes erupções de fantasmáticas sombras bruxuleantes, embaçando a visão desse preto-ator que desempenha o seu próprio papel, contraditoriamente dirigido por um Maquiavélico político-mor, proprietário major do chicote e do teatro de sombras S/A.

Hoje, após tantos novembros entoando as inaudíveis notas das teclas inexistentes nessas invisíveis oitavas, o preto-ator, tenta ser o que é, mesmo esquecido do próprio papel, que agora se torna audivelmente bem descrito pelo tropel do Palomino que adentra, marchando impávido sobre a clareira do pelourinho, e também pelo esvoaçar surreal dos trajes da elegante princesa que gentilmente o cavalga, observando do alto de sua montaria, as flores de lótus e as Camélias passantes, a caminho do grito ortivo do Gólgota, enquanto do lado oposto, o estático dossel do inominável observa paralisado, feito estátua comemorativa postada em praça pública.

A chuva de sangue que escoa do alto, através dos sulcos criados pelos caminhantes, nas encostas, em torno do citado Gólgota, quando toca a base das faldas, transforma a poeira da estrada em completa vermelhidão, enquanto o réquiem entoado se torna cada vez mais audível para aquele que se encontra lá no alto, dependurado, sendo seguro somente pelos impassíveis e pontiagudos cravos que lhe transpassam a carne preta, enquanto o que internamente ele ouve, é o coral da sua epifania, entoando nas letras do seu cântico que, o real valor da alegria só pode ser perpetrado através do conhecimento administrado por uma pungente dor; dor esta, que só pode ser sentida quando se caminha sobre o tapete vermelho-sangue, que tem o fluxo de sua oitava, oriundo nas simples manjedouras d’uma pobrecita maloca qualquer, indo até o  tenebroso pelourinho de um Gólgota ortivo particularmente público.

Diante desse espetáculo, de longe, pode-se ver as teclas, pretas e brancas, entrincheiradas em fila, formando infinitas oitavas de causas e efeitos, sendo destilados por meio de melodias, ritmos, rimas e axiomas ditados pelos compassos compassivos, abduzidos pelos ouvidos moucos que, costumeiramente malhavam com frias chibatas, a preta carne quente dos nubentes, provocando desmaio de morte frente ao show aonde se homenageava os melhores do ano, como representantes dessa alienada nação.

Desse modo, as efemérides se tornaram preciosos instrumentos ressuscitadores, exatamente como os aparelhos volta e meia usados em cirurgias cardíacas, a fim de dar sobrevida a carcaça desse paciente que, há muito, já está ausente.

É dessa forma, vendo o sangue alheio escorrendo sobre os seus pés, que um escravizado padrão se sente enfim, um cidadão; pois só mesmo cotejando os sofrimentos alheios com os seus próprios sofrimentos, que ele consegue sobreviver ao silêncio cantado nas cartas e nas canções de denúncias dessas efemérides homicidas, que adornam as paredes desse labirinto em que foi transformada a nossa existência, quando encobriram todas as portas e possíveis saídas, com as espectrais datas comemorativas, e por conseguinte, encobriram também as nossas reais chances de liberdade plena.

Portanto, fazer calar o tétrico espetáculo das manipuladoras efemérides; adjudicadas a partir das instituições oficiais e suas Tecnologias de Informação e Comunicação; fatalmente provocará intensos rubores nas princesas de maio e nos seus fiéis seguidores Caxias, que céleres, cobrarão providências urgentes em prol da família e dos bons costumes, clamando veementemente pela volta dos chicotes-com-pelourinhos-públicos, com direito ao retorno imediato da arcaica política do café-com-leite, com AI5 e similares fazendo parte dos adereços e penduricalhos que adornam o atávico carro-chefe que puxa o carnaval da ala das nações.

É nesse momento que a porta do sagrado se encontra em profundo silêncio, sigilosamente aguardando serena pelo despertar das notas mudas emitidas pela imprensa, pela escola, pela política e pela religião, conclamando a todos, a viver uma vida fora dessa milenar prisão, sutilmente construída pelas crenças disfuncionais, além das perdulárias ideologias e empatias descapacitantes.

Desse ponto em diante, quando os cartazes e propagandas das efemérides se tornarem anátemas, então seguiremos a Luz no final desse túnel em direção à vida, celebrando a nós mesmos, como milagres de fato; nascendo de novo, numa escala de infinitos milagres ruidosamente silentes, oriundos das epístolas nunca antes escritas; já que fora totalmente despida das suas letras condicionantes, após serem desovadas as margens dos sentimentos sublimes do Ipiranga, durante o lancinante, prolongado e agudo grito, seguido de um inspirar profundo ao final, que trouxe enfim, o estrondoso silêncio do vento norte; vento do nascimento de um lado, e da morte, no sentido oposto.

Após caminhar sobre o honrado tapete vermelho das Causas e Efeitos, é notório a percepção de que, o Cantar e o Dançar, na alegria ou na dor, faz com que o indivíduo possa enfim, sacudir as cinzas que camuflam esse mundo feito de toda cor, saindo da lógica fria do empedernido xadrez em preto e branco, para deslizar suavemente sobre as cores do Arco-da-velha, sem gritos nem vela.

É dessa forma que, nesse livro ainda não escrito com palavras, mas, já lançado numa importante data sem comemorações; que a Bela Princesa Preta, dá o seu vibrante beijo de silêncio profundo na boca do alto falante altivo; conseguindo enfim; acudir o príncipe encantado do atroz e entorpecedor látego carrascoso, ao esquivar-se habilidosa e graciosamente, com cabeçadas certeiras, rabos-de-arraia e precisas rasteiras, cegando o afiado fio da penetrante navalha alemã e da perfurante ponta do gládio invasor, transformando os gritos de dor em cantos de Amor. Desde então, essa história de Afrodite, narrando o seu grito de aventura as margens do Ipiranga, ao resgatar o seu amado das trevosas garras da voraz senzala; caiada como se fosse a aconchegante e singela casa da vovó; é repetida nas ladainhas entoadas ao pé do Gunga, do Viola e do Berra-boi, nas rodas regadas a Semba e Maculelê em torno das fogueiras que iluminam as longas noites da alma.

Dessa maneira, silenciosas músicas são entoadas, e majestosas danças são executadas em torno das chamas crepitantes dessa fogueira; fogueiras acesas somente em noites sem luas no inverno da alma perdida de si mesma, até que a chama do silêncio, aqueça essa gélida brisa que adensa o doloso e dolorido grito emitido, que ecoa longamente em torno do cinzento ar que circula o pelourinho em flor, perpetuando o divino sopro da vida.

Destarte, o silêncio sempre traz consigo a verdade completa, que jamais pode ser olvidada; procrastinada talvez; esquecida, nunca. Evitar a tertúlia com o silêncio, ao tentar fazer ouvidos moucos para os segredos contidos nos lábios cerrados de um preto velho sossegado, não é garantia de um eventual sucesso para escapar da incessante luz emitida por sua chama interna; é a vibrante chama brotada a partir do silêncio dialogado que aquece a alma, dando vida a essa autoconsciência que colore a existência de si mesmo, nesse Tudo que é o Todo.

Portanto, somos uma estrela de primeira grandeza, que se encontra encapsulada num veículo, composto majoritariamente por essa melanina, que foi sutilmente cognominada como carbono. Portanto, o invólucro de ébano que oculta a luz no interior dessa estrela, só pode ter a sua porta aberta, quando formos capazes de ouvir a suave campainha do silêncio ativo, mesmo sobre o intenso e ininterrupto batuque desse tambor que repinica em nosso peito, impondo o compasso da vida e o ritmo da nossa existência.

É escutando ativamente o retumbante silêncio que ecoa no batuque desse tobal[1] incrustrado em nosso peito, que enfim, poderemos celebrar as alegrias dos milagres da vida plena, sem o peso da bagagem cármica trazida no alforje de culpas e desculpas; sacola sedutoramente oferecido pelo Black Friday novembrino do Mercado Infame[2] nosso de cada dia, que nos dói hoje, nos cercando com as armadilhas das propagandas de datas comemorativas, ao aponta-las em direção as nossas mentes e corações, como a armas de grosso calibre que verdadeiramente são.

Entre a insulto oferecido como denúncia pelo poder religioso em questão, diante da visão provocadora da fumaça do afrontoso cachimbo do velho ancião; chamado de Preto Velho pela conveniência da pilhéria em qualquer situação; e a fumaça saída dos fumegantes canos incandescentes das armas engatilhadas no peito do Mulato inzoneiro, a sensação dos adrenocromos são negociados nesse infame Mercado de ações de vida e morte, a preço de ocasião, com propagandas e campanhas que seduzem o neófito em meio a essa arrítmica infestação.

Agora, a Primeira Princesa Preta novamente circula o pelourinho contemporâneo, montada em seu intrépido Corcel Negro, enquanto discorrem os discursos políticos em horário gratuito obrigatório, incentivando as políticas públicas com as ameaças rotineiras de sempre, que constituem o cotidiano da Urbe. Essa é só mais uma noite comum no gueto do Gólgota, que antecede o grito fabricado com esmero pelos látegos medievais pós-modernos, a fim de que o verbo novamente se faça em carne viva, transformando-se a seguir, num Frankstein de terno preto e gravata vermelha, remendado com vernáculos gongóricos, bibliografias pedantes e títulos anátemas, até que ele venha a ser, finalmente desencantado, através do beijo do Silêncio profundo, oferecido pela Primaz Princesa Preta, essa guerreira criadora do vórtice constituído por um só coração e duas mentes, ao som do silente batuque, executado por esse tambor, que tempera o diálogo, finalmente estabelecido nas profundezas desse estrondoso Silêncio repousado.



[1] Tambor de guerra.

[2] Denominação da Tráfico de gente; referência a escravidão dos Povos Africanos.

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