A Verdadeira História de um Brasil Brasileiro

Lamentavelmente a história do Brasil ainda não foi escrita; e para que isso finalmente venha acontecer, o(s) historiador(es) não poderá jamais ser um fruto dessa pervertida academia colonizada e colonizadora, que se dedica com afinco, com esmero e extrema habilidade na função de legitimar essa mesma dominação que impôs um padrão de produção de conhecimento, de trabalho e de salários racializados; padrão este infligido através do crime da escravização e da violência colonial promovida pelo Estado. Nesse cruel e corrupto processo, foi criada e a nação brasileira fundamentada a partir de uma sociedade monorracial, quando a sociedade é que nasce da nação e nunca o inverso.

Dessa maneira, o povo indígena e o povo negro alijados dessa sociedade que foi a única no mundo que importou, subvencionando imigrantes europeus a fim de embranquecer a república recém-criada na Terra da Santa Cruz, com o claro intuito de europeizar e formatar um povo brasileiro europóide.

Mas elite tupiniquim viu seu projeto de nação adernar, uma vez que o extermínio dos Povos Indígenas, a eugenia e o genocídio do Povo Negro, não foram suficientes para erradicar os genes dominantes imposto pela natureza a cada menina e menino que nesse solo nascia com melanina, frente aos genes recessivos dos degradados portugueses e imigrantes europóides.  

Foi assim que, recém libertos, em 1891 as negras e os negros pós escravizados, são juridicamente excluídos pelo Estado republicano do emprego formal, cabendo aos imigrantes europeus, até os dias de hoje, a prerrogativa de empregabilidade e o livre acesso a posse da terra. Assim funciona a nação brasileira: com diferentes povos habitantes em seu solo, mas somente um deles possuindo a cidadania plena, com acesso aos benefícios e privilégios da presença do Estado de maneira positiva.

Dessa maneira, podemos inferir que a questão do negro no Brasil vai além da questão racial, visto que os sinistros fatos e as fúnebres estatísticas de ocorrências do racismo no Brasil mostram a impossibilidade e a ineficácia do uso da letra da lei ou da falácia da igualdade racial, para se transformar um indivíduo racista num indivíduo não racista, e menos ainda, antirracista. Portanto, a busca por uma improvável e mítica democracia racial deixou de ser prioridade para o portador de melanina; a questão do negro no Brasil, deixou de ser uma questão racial; a questão do negro é uma questão nacional.

Pois é inadmissível que o Estado nacional seja um Estado particular de uma elite monorracial que não se vê no povo, e uma vez que, tal como Narciso, ela não se enxergando no próprio povo, essa elite pouco se importa com as questões que envolve esse mesmo povo. Ela egoisticamente se volta para si mesma, desde as telas do cinema e da TV, das capas de revistas até na matinê, e o que cabe ao povo preto, além do pão e circo, restam-lhe somente as grades das cadeias e dos hospícios, o frio chão dos orfanatos e dos asilos infectados.  

Portanto, podemos afirmar que as tentativas de integração do negro a essa sociedade europóide a partir das Ações Afirmativas ou da retórica da ingênua exigência de igualdade racial é análoga a penosa missão de enxugar gelo ou encaixotar fumaça que vem substituir a pedra de Sísifo do lado de lá e o látego do verdugo do lado de cá, amarrando os nós construtores do cativeiro dessa Matrix construída pelo Grande Irmão. Sendo assim, a história do Brasil sem o negro, não passa de uma história desonesta, conveniente e covarde. Ou seja, é uma tétrica história de humor branco, já que a história da “civilização” branca tem sido uma história de roubos, de mortes, de invasões, de torturas, de saques, de corrupção e assassinatos. Os museus europeus e norte-americanos trazem as provas dessa trilha de destruição deixadas pelos europeus em todos os lugares em que se fizeram presentes, enquanto as marcas e as cicatrizes dessa trilha foram deixadas na alma negra em forma de medos, traumas e síndromes.

Sendo assim, a história do Brasil, quando finalmente for escrita, não será uma história de revisionismo nem de vingança, pois não temos tempo a perder com valores europoides, mas sim, será uma história de resgate humano, num conto habitado por Reis e Rainhas, Príncipes e Princesas, Magos, Bruxas, Fadas e Feiticeiros, e jamais por daquelas personagens confeccionadas pelo clero, queimadas na fogueira da santa inquisição e retalhadas pelos chicotes do crime da escravidão.


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