A Coragem dos Excluídos

Antes dos anos de 1400, o racismo não existia no mundo. O que existia, eram as diversas formas de discriminação. Ou seja, a escravização só se dava por conta de três motivos: perseguição religiosa; ser capturado em caso de guerra; ou por questões de endividamento.  

Foi por volta de 1442, que o Papa Inocêncio foi presenteado com 16 negros, capturados na costa africana pelos portugueses que por ali navegavam. O religioso achou aquilo incrível e ficou extremamente feliz, pois pela primeira vez ele teve ao seu dispor, pessoas para trabalhar nos arredores do Vaticano e para lhe servir a seu bel prazer, sem que precisasse ter que retornar com qualquer forma de pagamento.

Daí em diante, como forma de agradecimento, o papa decidiu permitir que todos os europeus tivessem esse privilégio; sequestrar pessoas para trabalhos forçados, com a única condição de que fossem pessoas negras.

A partir desse momento, deu-se o início da corrida para se estabelecer no mundo o abjeto Mercado infame; mercado este que se definiu pelo sequestro de africanos e seu consequente tráfico, como se fossem quaisquer objetos, além de sua escravização, e a posterior colonização das terras do continente negro, e um pouco mais tarde, pela colonização das terras dos indígenas americanos.

Dessa maneira, os reinos africanos foram destroçados, e a história dos povos africanos, assim como a dos indígenas, foi interrompida pela insídia, pela tortura e por toda a escuridão trazida dos calabouços trevosos da idade média, através do vil trabalho dos Missionários, Mercadores e Mercenários respectivamente.
Dessa forma, há mais de quinhentos anos, os povos africanos e afrodescendentes no mundo inteiro, foram violentados, torturados e assassinados por esses terroristas e seus descendentes, que atualmente, são os continuadores desse infame mercado de almas negras; mercado este que, lamentavelmente foi então financiado pelos negociantes judeus.

Nossa nação, assim como todo o Novo Mundo, foi construída sobre o signo da barbárie escravista; e hoje é uma nação totalmente edificada pelas pedras da opressão e cimentada com as hemácias do genocídio dos povos Indígenas e Africanos. Foi através desse crime que a oligarquia e a elite urbana estabeleceram seus direitos privativos e seus privilégios perpétuos, amealhados através do terrorismo estatal, tendo os imigrantes europeus também se beneficiado, desde 1808, dessas mesmas benesses adquiridas pela força do látego e da selvageria indiscriminada, que foram abertamente praticadas como política de estado contra nossos antepassados negro e indígena.

Dessa forma, no Brasil, assim como as prisões e hospícios, o poder tem cor e tem casta, da mesma maneira que a segregação social e racial grassa entre o asfalto e a favela, desde os prédios inteligentes, palafitas e até indigentes. A cidade moderna é composta por exploradores e opressores, que respectivamente ocupam seu lugar na cadeira giratória de engravatado e a subserviência do trabalho forçado e subalternizado, enquanto o controle do poder nacional é exercido pelos descendentes das famílias tradicionais, herdeira dos privilégios adquiridos através do abominável crime da escravidão.

Essas regalias aqui mencionadas, são amplamente explicitadas pelos através dos atos oficiais dos quatro poderes nacionais: judiciário, executivo, legislativo e forças armadas; sendo diuturnamente expostas nas manchetes dos jornais e noticiários matinais, que exaustivamente vem revelando essa hegemonia no controle do poder nacional de forma bastante banalizada, mostrando os numerosos escândalos de abusos de poder e de corrupção deslavada desde 1808 até os dias atuais; destarte, o povo é alijado e alienado dos assuntos nacionais, a fim de se evitar a sua participação referente as questões relativas aos seus interesses, enquanto é estimulado a reagir como telespectador, assistindo impassível a esse circo de horrores protagonizado pela política nacional;  política essa, consolidada a partir do golpe militar que instaurou a república federativa dos estados unidos do brasiu.

Depois de passados vários séculos dessa covarde conivência que sempre reconfirma e atualiza seu status através da silenciosa cumplicidade entre a igreja, o Estado e a sociedade, finalmente no século 21; mais especificamente no ano de 2001; esse silêncio foi enfim rompido na conferência de Durban; na África do Sul; quando finalmente, a Organização das Nações Unidas, reconheceu afinal esse Crime da História, que foi o Tráfico Negreiro Transatlântico, a Escravização dos Povos Africanos e a Colonização do Continente Negro e das três Américas, determinando assim, a Reparação desses mesmos crimes.

Portanto, agora é hora de recobrar nossa coragem roubada, mesmo que nos encontremos em frangalhos, fragilizados e fragmentados de forma física, psicológica, epistemológica e espiritualmente pelo terror incitado pelas variadas formas de violências cultivadas por esse Estado profundo e escuro; esse mesmo Estado que ainda nos submete, subalternizando e se apropriando da nossa força de trabalho, além de controlar nossa subjetividade enquanto sujeitos protagonistas de nossa própria história.

Agora é hora de reconquistar nossa coragem a fim de sermos sujeito da história roubada que se encontra refém de um padrão imposto pela violência colonial, fazendo eclodir a escravidão moderna que brotou do sangue jorrado de nossos antepassados; esse mesmo sangue empregado como adubo neste solo que foi transformado num vasto cemitério para os Pretos Novos e para o Preto Velho, nesta mesma cidade que serviu como câmara e antecâmara de indescritíveis torturas e sevícias, a fim de calar nossa voz, infligindo o profundo medo marcado como cicatriz, que nos pesa na alma, trazendo o temor de encarar o patrão; esse senhor escravagista de outrora que do Estado hoje se assenhora; e dizer NÃO.

No dia Sete de setembro, nosso grito não mais será o grito dos excluídos; mas sim, o grito da coragem dizendo NÃO a opressão; NÃO a escravização; NÃO ao Medo de dizer NÃO; e com um amplo sorriso ao erguer a mão, vamos dizer SIM a Justiça, ainda que tardia; vamos dizer SIM para a Equidade de um Estado que seja Compartilhado, Pluriétnico e Pluricultural.

Portanto, hoje decretamos a Reparação já, em alto e bom som, exigindo que o Estado brasileiro e a Igreja reconheçam e assumam as suas responsabilidades, respectivamente como autor e coautor, diante do hediondo crime da escravidão outrora praticado contra os Povos Indígenas e Africanos, e atualmente contra todos os seus Descendentes.
Reparação já...!!





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