O Movimento dos Negros Unificados e a Reparação aos Descendentes de Escravizados Africanos no Brasil
O Movimento
negro tal como o conhecemos hoje, iniciou-se no Brasil a partir de 1968
impulsionado pela luta dos negros norte-americanos em prol dos direitos civis,
tomando sua atual forma em 1978; e nessa caminhada, chegamos a década seguinte com
o encontro de mulheres realizado em Beijing, na China, em 1985, iniciando-se assim,
o movimento de mulheres. Até então, no Brasil não se falava em Reparação.
Foi nessa
caminhada que uma de nossas irmãs pretas, chamada Ruth Pinheiro, foi participar
de um encontro na África, mais especificamente na Nigéria, em 1992. Assim que ela
retorna ao Brasil trazendo o tema da Reparação, acontece a cisão no
movimento negro: uma imensa maioria permaneceu em prol da luta da igualdade
racial e ações Afirmativas, tal qual os negros norte-americanos o fizeram, enquanto
uma pequena parcela, inicia a luta em prol da Reparação; luta esta impulsionada
até o presente momento pelo Prof. Yedo Ferreira.
Mesmo após
ter tido conhecimento, em 1993, através da citada militante Ruth Pinheiro, e mesmo
posteriormente ter aprovado no congresso de 2003 a luta pela Reparação, o movimento
negro unificado efetivamente nada fez a respeito da responsabilidade assumida
no mencionado congresso.
Hoje, o
Movimento pela Reparação, capitaneado por uma Organização em formação; a
OLPN-Organização para a Libertação do Povo Negro; vem lutando por esta causa,
pautado na resolução da ONU-Organização das Nações Unidas, que determinou a
imprescritibilidade de atos como o tráfico negreiro transatlântico, a
colonização nas Américas e em África e a escravidão, considerados como crime contra a humanidade; devendo,
dessa maneira, o causador do dolo reparar as suas vítimas; cabendo, nesse caso,
a Reparação a todos os descendentes dos povos africanos que foram escravizados no
Brasil.
Desse modo,
ao Estado brasileiro cabe a responsabilidade de reconhecer tal crime, visto que
ele, o Estado brasileiro, junto a igreja como corresponsável; legalizaram e
permitiram respectivamente a colonização, o sequestro e o tráfico de africanos,
e a escravização dos mesmos em solo brasileiro. Dessa forma, toda a riqueza
produzida na nação brasileira teve sua origem nesse infame mercado de gente preta;
e tal como os povos indígenas; hoje temos como herança o racismo e, por
conseguinte, o genocídio; eternizar-se um crime continuado, iniciado a mais de 388 anos atrás, e que se arrasta através
dos infindáveis dias, fazendo nossa humanidade viver nas sombras das sombrias noites sem lua.
Podemos
fazer uma rápida análise olhando para a história da China, que, com um bilhão
de habitantes em 1945, possuía 45% de desempregados e conseguiu dirimir essa
situação num tempo recorde na década seguinte, enquanto no Brasil de Hoje,
2019, com 210 milhões de habitantes, temos 60 milhões de desempregados. Ou
seja, são 35% da população sem trabalho formal. É forçosa a percepção de que o
negro e o indígena não têm terra e nem trabalho, já que a sociedade capitalista
nos excluiu dessa nação sem povos, visto que o Brasil é formado por vários
povos que, salvo os indígenas e nós negros que ainda não nos reconhecemos como povo[1],
reivindicam suas respectivas nacionalidades.
Os negros
norte-americanos, que são cerca de 12% do total da população, já perceberam que
compraram gato por lebre ao constatar
que as Ações Afirmativas não atenderam aos seus anseios pelo direito de justiça,
e agora, se voltam para exigir a Reparação. Porém, os negros brasileiros, que
somam cerca de 60% da população brasileira, assim como o movimento negro unificado, ainda
não se deram conta desse fato, e ainda persistem na luta pela igualdade racial[2],
da mesma forma como fizeram os norte-americanos lutando em prol dos direitos
civis.
Dessa forma,
o movimento negro intrinsicamente percebendo a falência das Ações Afirmativas,
acabaram por adotar o discurso da Reparação, sem, no entanto, ter as condições
necessárias para implementar quaisquer ações prática nesse sentido, visto não
estarem preparados e não possuírem nenhum acúmulo ou qualquer base teórica
sobre o conceito de Reparação. Portanto, hoje no Brasil, há o movimento de um
grupo que fala sobre reparação e de outro grupo que luta pela Reparação.
[1]
O que caracteriza um Povo é a sua Tradição, sua História e sua identidade de
Destino.
[2]
Mesmo com a aprovação do Estatuto da Igualdade Racial ter sido aprovado, tendo
como relator o atual ministro do governo Bolsonaro, Onyx Lorenzoni, nada mudou
na vida da pessoa negra, visto que tal estatuto não dá condições efetivas para
que possa refletir sua teoria junto a prática cotidiana no que se refere a
produção da desigualdade e do genocídio do povo negro.

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