Sobre o Encontro do Movimento de Reparação Histórica em São Paulo, Campinas, em abril de 2019

Além do encontro, realizamos também um seminário aonde abordamos a História da Reparação, analisado o seu contexto na atual conjuntura, e os procedimentos necessários para se redefinir a nação através de um Projeto Político que visa a efetiva participação daqueles que, historicamente foram criminalizados como povo, e dessa forma, marginalizados e excluídos da Nação e, consequentemente, da sociedade.

Foi pontuado a ocorrência relativa ao fundo de emancipação, pago pelo Estado aos escravocratas desde a promulgação da lei do ventre livre, em 1871, até o governo de Getúlio Vargas, em 1930. Atentando para o fato de tal pagamento não ter tido nenhuma razoabilidade e nem fundamento, principalmente após a promulgação da falsa lei de abolição da escravatura, em 1888. Ou seja, o Estado, que foi responsável por um dos maiores crimes contra a humanidade, teve a cínica atitude e a desfaçatez de bonificar esses atores, os criminosos e seus asseclas, promotores do crime em questão que foi o regime da Escravidão dos Povos Africanos no Brasil. 
Ressaltando que a exigência de Reparação que apresentamos, é uma forma de negociação com esse mesmo Estado, exigindo o reconhecimento das suas responsabilidades junto a esse funesto evento ocorrido num determinado momento de sua história.

Ressaltamos e traçamos a importância do conceito de Reparação que surgiu ao final da guerra dos 100 anos, em 1865, numa conferência nos Pirineus, e que nessa ocasião foi acordado que os perdedores da guerra indenizariam os vencedores. Desde então, a reparação de guerra vinha sendo aplicada, até que surge a primeira grande guerra, em 1914; terminada a mesma, houve uma conferência de Paz, em Versalhes, quando invariavelmente constataram o óbvio; que os países acabavam quebrando por conta dessas indenizações, decidiu-se então que a Reparação não se daria somente de forma monetária. Ou seja, na Reparação passa a ser o Reparado que decide sobre as suas prioridades e formas necessárias à sua reparação. Ainda nesta Conferência de Versalhes, foram definidos e tipificados os conceitos de Crimes de Guerra, Crimes contra a paz, o Crimes de ódio e os Crimes da história.

Mas foi após a 2ª grande guerra, em 1948, que a Reparação se efetiva em seu novo molde, beneficiando principalmente ao povo judeu, e também aos tailandeses escravizados pelos japoneses, quando foram os mesmos obrigados a plantar arroz para os soldados nipônicos; e também as mulheres chinesas, que foram obrigadas a servirem como prostitutas nesse período se beneficiaram nessa ocasião. Das mais recentes Conferência realizadas pela ONU, a de 1968 e a 2001, tiveram como tema o racismo, a discriminação, a xenofobia e correlatos. E foi justamente na Conferência de 2001, em Durban, África do Sul, que a ONU qualificou a escravidão, o tráfico negreiro e a colonização tipificando-os como crimes da história. Portanto, tais crimes, se tornaram inafiançáveis e imprescritíveis.

Dessa maneira, o Brasil, na qualidade de signatário, presente à está Conferência com um número recorde de delegados, desde seu retorno dessa Conferência até o presente momento, o Estado brasileiro ainda não se pronunciou a respeito da resolução emanada da Organização da Nações Unidas neste evento, já que o Estado brasileiro que é dominado pela elite, pela oligarquia, pelo bolsonarismo que é uma massa formada por religiosos, além de um núcleo duro militar, que contrariando os fatos, instituíram uma política unicamente determinada através da economia.

A população preta brasileira, ao contrário dos palestinos, judeus, ciganos ou indígenas que se reconhecem como povo, deixou de se reconhecer dessa forma após o Estado brasileiro,  após o golpe republicanos, lhes conferir a nacionalidade que os catalogaram como afro-brasileiros. Dessa forma, o negro com sua identidade fragmentada, deixa de agir coletivamente, e como povo, não implementa a luta para exigir seus direitos como tal; em vez disso, a população negra luta para se integrar a sociedade governada pela supremacia branca, acreditando e considerando suas instituições, tais como as leis e a própria justiça, como instituições que verdadeiramente um dia possam vir a representa-los.

Portanto, a massa preta, no afã de se integrar a essa sociedade, tem visado somente as questões sociais relativas a supremacia branca, que oferta ao povo negro, todas as suas ideologias desviantes. Dessa forma, a massa negra vem servindo fielmente como massa de manobra, usada com habilidade pela supremacia branca que governa essa sociedade invisibilizando o Estado e a nação, chegando ao ponto de levar alguns dirigentes do Movimento Negro Unificado do Rio de Janeiro a virem acusar o Movimento de Reparação de ser machista, visto que a Reparação por nós exigida trata do POVO NEGRO e não menciona às mulheres em seu caput.

Abordamos o fato da revolução Russa, na antiga União Soviética, ter se dado, mesmo com 21 diferentes etnias em seu solo, a despeito das ideologias desviantes; da mesma forma a África do Sul, com 11 etnias, ou mesmo Angola como exemplos de luta nacional, luta de Povo, de Nação. Sendo assim, inferimos que a Reparação se trata de uma luta nacional que precede a quaisquer questões sociais e assim necessita ser priorizada. Porém, é necessário levar em conta; uma vez que a história nos mostra que, mesmo fazendo a luta nacional, como fizeram Angola e África do Sul; sem um projeto de nação, a sociedade não se transforma. Sem um Projeto de Nação, cometeremos o mesmo equívoco de Karl Marx, quando numa entrevista ao New York Times[1], afirmou que não via o fator da Nacionalidade na guerra civil Espanhola. Dessa forma, ele, Marx,  sempre tratou da questão social em seus estudos e nunca de nação, visto que, como muitos de nós, ele não enxergava, o Estado, mas somente o governo como meio para um fim.

Dessa forma, cientes de que os governos passam, mas o Estado é permanente, nesse encontro traçamos as devidas estratégias para a elaboração do Projeto Político de Nação do Povo Negro para o Brasil, cujo manifesto em breve estará exposto numa Carta a Nação elaborada pela Organização Pera Libertação do Povo Negro.

Reparação já...!!





[1] A fonte dessa informação veio do militante negro Yedo Ferreira, mas nas minhas pesquisas eu só consegui confirmar e ler a entrevista dada por Max ao jornal Chicago Tribune sobre o assunto em questão, em dezembro de 1878.

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