Capoeira; Legado Negro.


Foi aqui no Brasil, mais especificamente no Rio de Janeiro que o negro se fez africano; pois antes disso, eles eram somente etnias vindas da costa do continente negro; eram genericamente bantos ou sudaneses. Mais especificamente, eram Ovimbundos, Ambundos, Ashantis, Nagôs, Fulanis, Fons, Mandingas, yorubás, Gêges, Minas, Haussás, etc. das regiões de Loanda, Benim, Guiné Bissau. Enfim, de toda a costa do continente.

Aqui no Brasil, mais especificamente no Rio de Janeiro, a única capital europeia fora da europa, uma vez transformada num caldeirão de todas essas culturas, se deu a síntese nascida na forja desse encontro dessas etnias. Dessa forma, a identidade negra começou a ser tecida, tornando-se enfim, na Cultura Negra Afro-brasileira.

Capoeira, era o nome de um pássaro, que normalmente tinha o seu assovio imitado pelos praticantes de capoeira, mas também era o nome de um cesto carregado pelos negros no centro urbano da cidade do Rio; onde “ca”, em tupi-guarani, significa material vindo da mata; e “pu”, significa cesto. Ou seja, os carregadores de capu, cestos feitos com produtos da mata, eram os capueiros; assim como açougueiros, barbeiros, etc. Mas mato ralo é também conhecido pelo nome de Capoeira.


Notamos então que a origem da Capoeira se deu nesse caldeirão de culturas, fato este que não aconteceu em nenhum outro lugar das Américas, para onde os negros foram traficados durante um dos maiores crimes da história, que foi a escravização. Nesse caldeirão, misturou-se o N’golo; ou dança da zebra vinda de Angola; a Bássula, vinda de Loanda; e o Umundinhu.

Pode-se afirmar que os Capoeiristas formavam uma protonação bantu no Rio de Janeiro do Século XIX; pois era uma força que enfrentava, afrontava e desafiava o Estado Nacional, mas que provocaram sua própria derrota a enfrentar seus iguais: os crioulos, negros nascidos no Brasil, e os pobres, brancos que se juntavam aos mulatos praticantes da capoeiragem.

Essa rivalidade tem seu início justamente na cisão entre negros africanos e negros mulatos. Os mulatos capoeiristas chamavam os africanos recém-chegados do continente de cabeça seca, por terem os mesmos a cabeça raspada; tal como é feito até hoje com qualquer prisioneiro nas cadeias de todo Brasil.

Dessa forma, quando os grupos rivais se encontravam, os Nagoas e Guaiamuns, nas Fortalezas de um ou de outro, que eram os bares que ficava na área aonde costumavam dominar e se reunir, o desafio era lançado e a luta tinha início, terminando com dois ou três mortos, um grande número de feridos e alguns presos.

Um ritual típico de desafio era um capoeirista chegar na fortaleza do outro, pedir um copo de vinho e outro de cachaça, jogar o vinho no chão e pisar em cima, para em seguida jogar a cachaça sobre o vinho pisado. Era uma afronta inadmissível, visto que o vinho representando a cor vermelha, cor dos Guaiamuns e que representava a sua divindade: Xangô, fosse pisado, e por cima dele se jogasse a cachaça, cor branca dos Nagoas e que representava também sua divindade: Oxalá.

O Estado percebeu que ia perder esse jogo, quando finalmente as duas maltas de capoeiristas pararam de se matar e se juntaram uma única vez. Desse modo, surgiu a lei de 1890. Dos vadios e capoeiras. Antes disso, a punição de quem era preso por capoeiragem era de cem chibatadas e uma estadia preso na ilha das cobras. Depois dessa lei, passou a ser o exílio em Fernando de Noronha. Foi dessa maneira que as maltas de capoeiras foram desfeitas.

Antes disso, o capoeirista nunca temia ser pego, pois, uma das principais missões de um capoeirista, para ser capoeirista de verdade, era pôr a polícia para correr, assim como fazia o afamado Manduca da Praia. Além do mais, grande parte dos soldados do exército eram capoeiristas, e quando viam outro capoeirista sendo preso, eles próprios enfrentavam a polícia junto com outros capoeiristas que se somavam a confusão e que não eram poucos no Rio imperial até o início do golpe militar republicano no Brasil.

Mesmo com o fim das maltas, a capoeira sobreviveu no Brasil republicano que foi tremendamente implacável para a sobrevivência dos negros e de seus descendentes, visto que a república buscava construir um Estado branco, pois pretendia fazer do Brasil uma França tropical na América Latina, tal como hoje deseja ser um Estados Unidos da América.  

Foi logo após a inauguração da Avenida Central, hoje chamada de Avenida Rio Branco, no Centro do Rio de Janeiro, que um magrinho chamado Ciríaco, um mulato que tinha o apelido de macaco na capoeira, enfrentou o campeão mundial de jiu-jitsu Sado Mako, conhecido como conde Koma; um homem que dava dois e meio do magrinho Ciríaco. Mas bastou uma devastadora meia lua para que o japonês voasse para fora do tatame e de volta para o Japão enquanto o capoeirista era levado nos ombros da multidão pela avenida Central do Rio de Janeiro.

Dessa forma, a capoeira chegou nos dias de hoje como jogo e como esporte, deixando um pouco de lado seu caráter marcial, visto que as firulas e floreios é que dão o tom dessa capoeira contemporânea de exibição; capoeira essa que no Rio antigo, os caxinguelês, os meninos aprendizes, praticavam se exibindo frente as maltas que abriam caminho durante os desfiles militares, as procissões e o carnaval na cidade do Rio.

Dessa maneira, no Brasil, além de ser forjar uma identidade negra, se formou também um povo negro. Ou seja, tudo o que a república temia aconteceu: o único povo brasileiro hoje de fato, no Brasil, é o povo negro, já que os indígenas foram quase que totalmente dizimados e os imigrantes brancos que aqui vivem, reivindicam as suas devidas cidadanias europeias.

Dessa forma, quem construiu este país, são os únicos que tem a legitimidade de serem considerados como povo de fato. Desde sua padroeira, passando pelo carnaval e pela capoeira, nossa cultura negra, única, agora toma o seu caminho de volta ao continente negro, totalmente formada e graduada, numa Diáspora terceira, levando seu valores civilizatórios de volata ao continente negro através da roda de Jongo, Maracatu e Capoeira. Eis o legado Negro deixado como presente a este Mundo que um dia se chamou Etiópia.

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