Um Breve Olhar Sobre o Iº Seminário Nacional de Reparação no Brasil

Como Professor negro, venho aqui expor o meu olhar, como partícipe presente nesse seminário, mas não na qualidade de palestrante e integrante do Movimento de Reparação no Brasil, mas sim como jornalista negro e cidadão de cor.  

Quando publiquei em meu blogue sobre as possibilidades desse encontro nacional, expondo a conjuntura atual, fazendo contraponto e explicitando as contradições existentes entre os conceitos de Reparação Histórica e de Ações Afirmativas, as polêmicas a respeito dessa postagem[1], a qual trago um breve trecho como nota de rodapé, foi motivo de apaixonados debates e infindáveis discussões consequentes de seu teor destemido e sem meias palavras. Diante desse meu exercício de livre expressão, o MNU imediatamente me exigiu explicação e retratação[2] pública respectivamente, ignorando qualquer noção de livre arbítrio da pessoa que não fere o livre arbítrio do outro.

Enfim, o Seminário aconteceu, seguindo fielmente o padrão conjuntural da atual política brasileira em céu de brigadeiro, com Legislativo, STF e tudo mais; e novamente os adeptos das políticas de Ações Afirmativas que contemplam uma ínfima parte da massa negra do Brasil varonil, sem absolutamente apresentar nenhuma tática ou estratégia, a fim de possibilitar a construção do Projeto Político do Povo Negro para a Nação brasileira, objetivo do Seminário, elaborando para isso, um requintado labirinto de discursos e retóricas, deixaram os ouvintes circulando em volta da questão, como um cão circula em torno de si mesmo atrás do próprio rabo.

O Seminário, cujo tema era REPARAÇÃO, teve 80% de seu tempo utilizado para produzir e reproduzir, fazendo e refazendo diagnósticos e prestação de contas, através de intrincados números estatísticos, a fim de convencer e justificar a validade das Ações Afirmativas como possibilidade de ser usada como tática de construção do Projeto Político de Nação, sem, no entanto, propor ou apresentar absolutamente nenhuma tática além do discurso e das retóricas de convencimento.

Sabemos que esse tipo de adestramento de permanecer andando em círculo como cobaia de laboratório, com o intuito único de mudar o suficiente para tudo permanecer exatamente como está, é usado há bastante tempo por movimentos sociais e ONGs que recebem polpudos incentivos financeiros do próprio governo e seus afiliados, como forma de procrastinar quaisquer possibilidades efetivas de liberdade verdadeira; essa é uma prática notória e pública escondida atrás do fino e frágil véu que veste e movimenta a dança da hipocrisia social protagonizando esse espetáculo promovido por nosso moderno e cruel sistema de casta.

O que os “movedores” que organizaram esse Seminário não contavam, e que subestimaram em demasia, foi justamente o olvidar da inteligência alheia e da capacidade de percepção de nosso povo que acorda, e observa esse cenário que se apresentava em forma de política rasa de manipulação, que tem a clara pretensão de usar a massa negra, tal como a mídia o faz. Essa percepção foi o saldo positivo que deu qualidade a esse encontro nacional; fazendo assim, o tiro sair pela culatra, acertando não só o pé, mas o coração da hipocrisia conjuntural reinante.

Dessa maneira, a palavra Reparação soou como um Tobal[3], ecoando pelos quatro cantos do Brasil através dos partícipes que aqui vieram somar conosco nesse acontecimento único; apesar de todas as tentativas de sabotagem para que a Reparação fosse silenciada no Brasil.

Mas esse é um caminho sem volta; a Reparação, assim como uma flecha lançada, já atingiu o tecido da hipocrisia nacional e se espalha como uma música de libertação, uma canção de redenção que ecoa até mesmo nos ouvidos menos atentos, a despeito das tentativas de debrankkkir[4] e eclipsar seu processo que já se alastra como um grande incêndio na Casagrande tupiniquim.

Reparação já...!!



[1] Este Seminário vai trazer a lume os meios disponíveis para concretizar o Projeto Político do Povo Negro para o Brasil, e explicitar as estratégias do mesmo para atingir tal objetivo, seja esta estratégia definida através da Reparação histórica, que vem sendo trazida como proposta pela OLPN, ou definida através das Ações Afirmativas, trazida como proposta pelo MNU.
Nesse Seminário será definida e exposta a tática necessária a ser colocada em prática, para implementar o referido Projeto, como será tal Projeto, e o objetivo final a ser atingido. A princípio, é de se esperar que os equivocados conceitos veiculados pelo senso comum a respeito do que venha a ser a Reparação Histórica, e o seu gritante contraste diante da definição do que venha a ser, e o que se veicula, sobre as Ações Afirmativas, fatos que serão explicitados, analisados e pesados, a fim de desfazer as desinformações, deformações e contrainformação relativas ao assunto em questão, permitam que possamos finalmente, avançar na luta diante, dessa dicotomia que tem paralisado nossas ações efetivas relativas a esse processo que se iniciou no ano de 1993 e que se arrasta até os dias de hoje”.


[3] Tambor de Guerra.
[4] Contraponto da palavra denegrir grafadas com as três letras K da Ku Krux Klan.

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