A Educação e o Projeto Político para um Brasil Brasileiro de Fato e de Direito


Nossa modernidade, forjada pela violência da colonização, impôs um padrão racializado de trabalho, salários, cultura e produção de conhecimento. Portanto, o sistema educacional brasileiro fazendo parte mantenedora desse processo traumático de dominação colonial como um dos principais instrumentos de controle[1], nesse país sem unidade, dividido por federações, caso único no mundo, como um projeto de nação construído pela elite brasileira; elite esta que desejava um Brasil como réplica de uma París tropical.

Tal projeto que teve seu início no golpe republicano, instalou no Brasil a política da eugenia[2] e da limpeza étnica em relação aos Povos Africanos e seus Descendentes, com a divina[3] educação herdada dos Jesuítas franceses.

Somente na década de 1960 que o ensino médio começou a se tornar presente na vida do povo brasileiro, antes disso, o esforço de educadores como Anísio Teixeira[4] na década de 1930, garantia apenas o ensino fundamental para o populacho. Nesse caso, o privilégio das escolas particulares, já que o ensino público praticamente inexistia, era garantido àqueles que contaram com a bondade do Estado[5]. Nesse caso, nos referimos aos imigrantes europeus que, entre as etnias indígenas e negras, eles detinham o privilégio branco de pertencimento racial que combinava com a cor da elite dominante.

Desse modo, os excluídos, indígenas e negros, tiveram sua inserção tardia e subjugada a um projeto político de nação que contemplava explicitamente ao projeto dessa elite a qual o Estado brasileiro sempre representou. Mesmo com o sufrágio universal que explicitamente sempre beneficiou as famílias tradicionais brasileiras que tem se perpetuado no poder desde a instalação do golpe republicano no Brazil, evento este promovido por essa mesma elite.

Hoje, com a intervenção militar, percebemos que esse projeto de nação da elite brasileira, que se manteve trazendo a bandeira da Educação, da Saúde e da Segurança, só contemplou a sua própria segurança e a de seus patrimônios. Portanto, na atual conjuntura esse projeto de nação se percebe esgotado, visto não ter mais as formas de poder garantir sua própria segurança, tanto que a presença militar dessa “intervenção” se faz presente na zona sul do Rio de Janeiro para proteger o patrimônio e a burguesia enquanto é imposto o Estado de Exceção aos que se encontram nas favelas cariocas. Ou seja, não se percebe a presença desse mesmo exército na baixada fluminense e menos ainda na região metropolitana desse Rio que precisa continuar lindo.

Desse modo, é notória a percepção de um Estado que aderna, sem um projeto de nação; sendo este mesmo Estado composto por diferentes Povos: os indígenas, os Negros e a população imigrante européia como continuação da saga dos degredados portugueses que acompanharam a invasão de Cabral a D. João. É chegada a hora da inclusão definitiva dos Povos, que foram social, política e racialmente alijados[6]; além de representados como personagens exóticas, folclóricas e afins pelos livros didáticos; tomarem parte nessa nação em todas as instâncias de poder, fazendo dessa nação Uni-Étnica[7], finalmente uma nação PLURIÉTNICA; e a Educação Decolonial mostra esse caminho como condição sine qua non diante desse contexto nevrálgico ao qual historicamente estamos vivenciando de forma tão dolorosa nessa atual guerra híbrida travada no solo brasileiro.O peso da pele branca foi colocado no prato de uma balança ao lado de um pelourinho com mais de 500 anos de sangue e carne preta triturada, misturada a infindáveis litros das lágrimas que temperaram os oceanos do mundo, enquanto os esvoaçantes cabelos loiros e os olhos azuis observavam os ossos moídos das crianças emasculadas e dos eunucos fantoches, essa balança da justiça branca se refestelou numa confortável rede, movimentando-se ao sabor das batidas do relógio da fábrica que alterna os intervalos de descanso, entre o trabalho servil e a ignorância senil da mão que segura o martelo e a foice; é nesse balançar infinito, marcado pelo intervalo das cabeças negras que rolam ante a afiada lâmina da guilhotina do carrasco e do corpo preto que sangra ao sabor do chicote do feitor, que este hiato mostra que tem a cor branca da passividade daquele opressor que se exime através do silêncio; desse silêncio nefasto que faz a vida passar em branco suave, observando as nuvens brancas fofas, de um futuro paraíso branco divino, com deuses e anjos brancos reluzentes. Ou seja, ser branco significa passar confortavelmente a vida em branco.

Dessa forma, torna-se notório que a cor da pele traz um peso referente ao seu passado, seja como supliciado ou como algoz, pois tudo que foi vivido, e o que está sendo vivenciado pelo indivíduo enquanto sujeito, decorre desse mosaico racial divido perversamente, montado pelos privilégios e pelas desditas ditadas pela Necropolítica desse estado de arte conferido pela indolência e pela arrogância da colonização. É desse modo que, apesar da existência do racismo, tornou-se impossível detectar a existência do racista, já que a cor de sua pele lhe confere os privilégios da lei, mas nunca os rigores da justiça.

A forma de sobrevivência ditada através da violência trazida pela pseudo alforria da falsa abolição, violência esta que vem de ambos os lados, fez com que essa mesma violência quando promovida pelo grupo que tem a cor do opressor sejam eximidas de quaisquer responsabilidades. Visto ser este um crime que se iniciou com o sequestro dos Povos Africanos, há mais de quinhentos anos, percebemos que a violência do oprimido, após legalmente criminalizada pela abolição, fez com que qualquer reação promovida pelos afrodescendentes contra esse crime da história fosse devidamente enquadrado pela lei de um congresso Uni-étnico.

Dessa forma, a banalização desse mal, fazendo parte do senso comum manipulado pela cultura de massa, transformou a população preta numa massa negra matável para a qual é dirigido o desejo de morte dessa sociedade que se tornou uma aberração cognitiva, após ter o cérebro ferido pela mídia fascista; assim como todos os meios de comunicação e informação que concorrem para a perpetuação desse crime. Dessa maneira, poderíamos fazer uma analogia com o holocausto sofrido pelos judeus e o holocausto sofrido pelo Povo Negro, e perceber a forma diferenciada como ambos são tratados pelas diversas mídias. Ou seja, um mesmo princípio com pesos distintos; enquanto se sensibiliza para o sofrimento de um, se banaliza e desumaniza o outro. Percebemos então que o direito de justiça é prerrogativa do algoz e raramente do supliciado.

Para quaisquer operadores do direito, formados e formatados pela academia eurocêntrica, prosaicamente não refutam esse princípio e nem esboçam qualquer intervenção nesse estado de direito inquisitório, romano e comprometido com o que há de mais espúrio no ser humano que se dispõe de qualquer ética para permanecer em sua zona de conforto racial. A Reparação por esse crime é o primeiro passo apara uma nação legítima, pautada pela justiça e a pela inclusão dos povos que aqui habitam; sem ela, continuaremos a viver nessa idade das trevas travestida de democracia racial. 



[1] 1827 = Primeira Lei Geral de Educação no Brasil (15 de outubro de 1827) – As Primeiras Letras
Instituídos nas cidades, vilas e lugares mais populosos. Ministrado por mestres e mestras.
Art.6 – Os professores ensinarão a ler, escrever, as quatro operações de aritmética, prática de quebrados, decimais e proporções, as noções mais gerais de geometria prática, a gramática de língua nacional, e os princípios de moral cristã e da doutrina da religião católica e apostólica romana, proporcionados à compreensão dos meninos; preferindo as leituras a Constituição do Império e a História do Brasil.

= Decreto Nº 1.331-A (17 de fevereiro de 1854) Art. 69. Não serão admitidos A matricula, nem poderão frequentar as escolas:
 § 3º Os escravos.

[2] Eugenia: Ciência que busca o melhoramento da raça; iniciativa de Francis Galton(1883-evolução das espécies {Mendel - eugenia e genética}), movimento social criado nos EUA, posteriormente Europa e América Latina, e culminando na Alemanha com Hitler. Justificada pelo reverendo Marthus em 1798. A eugenia estava presente na Constituição de 1934: para a Constituição, o Art.138 (b), cujo texto é: “estimular a educação eugênica”;.

[3] Essa educação se resumia aos ensinamentos bíblicos da religião católica que até hoje consta em nossa atual constituição a disciplina de Religião como única disciplina obrigatória.
[4] Escolanovismo (Fernando de Azevedo, Anísio Teixeira dentre outros) que defendiam: Plano geral de Educação cujas premissas fossem: escola única, pública, laica, obrigatória e gratuita.  Responsabilidade da Educação entre o Estado e a família.
- 1937: a Constituição estabelece a necessidade de se fixar as bases e diretrizes da educação nacional (em seu parágrafo IX).

[5] Temos um processo histórico em formação e construção da Educação Brasileira, ainda em curso, como um projeto de controle e de manipulação quando pensamos em termos de legislação, currículo e formação. E esse projeto é estratégico e gerado por um grupo hegemônico.
[6] Legislação colonial:
       As constituições primeiras do Arcebispado da Bahia – educação jesuítica (1707);
        Decreto Nº 1.331-A, de 1854 (art.69, § 3º): com a proibição de escravizados estudarem;
        Constituição de 1934: com o art.138: sobre incentivo à educação eugênica;

[7] Intelectuais negros não fazem parte dos teóricos na formação de professores.

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