A amputação de nossa história se deu com o sequestro
de nossos tataravôs, no continente hoje chamado de África. Essa violência, como
um nefasto crime que abalou para sempre toda a humanidade enquanto humanidade,
é conhecida de forma eufêmica nos livros didáticos, como TRÁFICO NEGREIRO;
também chamado de MERCADO INFAME.
Após esse violento sequestro, fomos torturados, humilhados
e jogados num porão fedido de um Navio fantasma, rumo norte, em direção ao
inferno branco povoado por santos eurocêntricos que prometia o sofrimento
eterno para aquele que fosse portador de uma pele da cor das noites sem lua...
Fomos então depositados atrás de grades ferro,
acorrentados e ensanguentados, depois postos em jaulas, inaugurando assim os
primeiros zoológicos humanos do planeta, de toda a galáxia e do universo conhecido
em todo seu esplendor. Assim enviezadamente imponderados, nos tornaram seres
exóticos para sermos exibidos, vendidos, trocados, negociados ou dado de
presente e destinado a esse futuro do presente ausente...
Hoje estamos aqui como construtores de uma nação rica
e forte, que foi transformada em cárcere, em calabouço; nação transformada na
câmara de tortura no holocausto continuado de um povo, nesse genocídio que se
iniciou a mais de 500 anos, e que nas escolas é ensinado para nossos filhos
como se fosse o capítulo de uma página virada dessa história que se passa em
nosso presente; por isso, essa história adulterada e infame supostamente se
refere a um povo esquecido, um povo vindo de florestas, um povo que habitava em
tribos, sem civilização, um povo historicamente inferior...
Hoje vivemos aqui, exilados no país que nós construímos
com nossas próprias mãos; vivemos nos Territórios de Exceção, em campos de
concentração, vigiados pelo Estado e seus agentes; esse mesmo Estado que também
diz nos representar dizendo que somos livres para continuar cativos ou para
continuar sermos escravizados pelos descendentes de nossos sequestradores; Esse
Estado nos diz que somos livres para continuar a produzir as riquezas dessas infames
famílias chamadas de tradicionais, que sempre usurparam toda a riqueza por nós
produzida...
A primeira noite eles vieram e roubaram uma flor de
nosso jardim e nós não dissemos nada; a segunda noite eles voltaram, pisaram
nas nossas floras e mataram nosso cão e nós novamente não dissemos nada; até
que um dia, o mais frágil deles invadiu a nossa casa e roubou a nossa luz, e
percebendo o nosso medo, roubou a voz de nossas gargantas. Hoje, mesmo que
quiséssemos, já não podemos dizer mais nada...
Por isso eu conto e canto essa história silenciada nos
sinistros porões dessa humanidade desumana que desfila na passarela de nossa preta
cultura, soltando esse grito que arde no peito; que é o grito de uma raça
nobre, é grito de uma raça guerreira, é grito da raça negra, é grito de
capoeira... REPARAÇÃO JÁ...!!
Esse grito é para que possamos ver e rever o
lamentável episódio do apartheid, não
como um algo passado, mas poder observá-lo de modo que possamos recontextualizar-lo,
enxergando não somente como um fato dessa página virada de uma história mal
contada, mas sim, como um grotesco erro que jamais deva vir a ser repetido na
história da humanidade, nesse momento tão caro onde a Colonização Mental tem
afetado perversamente a humanidade no mais recôndito do seu ser, sem que enxerguemos
os seus nefastos efeitos, que chegam envoltos em vistosos papeis de presente capciosamente
concedido pelos habitantes de Troia com seu capitalismo brancopofágico que leva
a sua liberdade cativa, surda e cega aos povos do mundo, impondo um
saber roubado, adulterado e cheio de adornos em forma de gongóricos códigos.
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